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O problema de a Coisa em Freud: entre a linguagem e a percepção

Atualizado: 7 de jun. de 2023

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado como requisito para obtenção do título de bacharel e formação em Psicologia pela Universidade Federal do Rio de Janeiro – UFRJ

Orientadora: Fernanda Theophilo da Costa-Moura



RESUMO


Ao propor uma teoria a respeito do funcionamento da linguagem, Freud se depara com o problema de sua articulação com o campo da percepção. É neste entrecruzamento, entre um sistema de linguagem e sua possibilidade de realização na percepção, que a noção de a Coisa primeiramente se apresenta em sua obra "Sobre a concepção das afasias". Com a tentativa de se formalizar um aparelho neuronal capaz de explicitar o funcionamento psíquico, essa questão se desdobra para a questão a respeito do móvel da ação humana: desejo. O que se coloca, agora, é a intersecção dos dois campos, linguagem e percepção, por um terceiro, o campo do desejo. É a partir desse campo do desejo e da tentativa de formalizar a natureza do objeto de desejo e sua possibilidade de realização no campo da percepção que a Coisa pôde surgir como fundamentalmente relacionada à unidade desse objeto, porém como uma unidade problemática. Como a unidade mesma do objeto nunca pode se realizar numa percepção simples, sendo, entretanto, pressuposta para que qualquer objeto se apresente enquanto unidade objetiva (caráter discreto da percepção), trata-se aqui de uma unidade velada. A unidade do objeto de desejo como a Coisa, é o que se apresenta como um problema nesse início da obra freudiana.



1 INTRODUÇÃO


O que é a Coisa? Talvez a pergunta possa ter demasiado peso filosófico para ser abordada de forma tão breve. O que se busca aqui não é uma resposta apoiada em uma determinada corrente de pensamento, mas, sim, uma forma de explicitar a importância da pergunta. Para tanto, serão utilizados como referências principais de todo o trabalho o texto “Sobre a concepção das afasias” (FREUD, 2013) e o escrito “Projeto” (FREUD, 2011). Apesar de partirem de campos teóricos um tanto divergentes, ambos podem contribuir para o aprofundamento da questão aqui proposta.

Na discussão do texto “Sobre a concepção das afasias”, será buscada uma caracterização do problema da percepção e sua articulação com a linguagem. Partindo da análise do autor a respeito de teorias sobre distúrbios afásicos e suas relações com a anatomia cerebral, será explicitado o modelo de funcionamento da linguagem proposto pelo autor[1]. Este modelo, tendo como fundamento o conceito de representação, apresentará aspectos relevantes para a concepção da articulação entre conteúdos perceptivos e unidades linguísticas. Será nesta articulação e nos problemas que ela suscita que primeiramente surgirá o conceito de Coisa, permitindo, assim, um primeiro recorte do questionamento que o presente trabalho propõe fazer.

Na leitura do escrito do “Projeto”, por sua vez, buscar-se-á evidenciar um desdobramento da questão levantada no debate acerca das afasias. Isso será realizado apresentando-se o modelo teórico do Sistema Nervoso[2] e explicitando-se o que é entendido como experiência de satisfação e objeto de desejo. Posteriormente, ao se analisar as chamadas associações de linguagem, o problema da articulação entre percepção e linguagem terá um desdobramento com a introdução do campo do desejo. Será neste contexto que a questão de a Coisa assumirá nova perspectiva, alinhada com os problemas antes delimitados, mas desdobrada pela emergência do problema do desejo e de sua satisfação.

Por fim, as questões levantadas por ambas referências utilizadas convergirão para uma proposta de articulação. Ela será uma tentativa de evidenciar em que contexto se insere a problemática de a Coisa e como ela se relaciona com questões relativas ao campo da linguagem. Esta articulação pode ser vista como uma traição aos textos analisados pois transpassa diferenças teóricas evidentes entre os textos. Mas, por isso mesmo, evidenciará como a problemática em questão percorre diferentes momentos e contextos do pensamento de Freud.

Aqui não se pretende e não se propõe uma resposta à questão abordada. Ao contrário, busca-se abrir um campo de discussão ao explicitar um determinado problema presente em textos freudianos anteriores à fundação da Psicanálise. Uma análise de textos posteriores do autor não é apenas possível como é de fundamental importância para o aprofundamento da questão para o campo da Psicanálise.

Este trabalho será segmentado em duas partes relativamente independentes (Tópico 2.1 e Tópico 2.2), cada uma abordando um dos textos de referência, sendo finalizada por uma tentativa de articulação entre ambos (Tópico 3).


2 DESENVOLVIMENTO


2.1 Sobre a concepção das afasias


Em seu texto “Sobre a concepção das afasias” (FREUD, 2013), Freud busca analisar o problema das afasias através de uma discussão a respeito das teorias explicativas de pesquisadores em neuropatologia de seu tempo. Partindo desta discussão, propõe uma forma de se pensar o funcionamento da linguagem através de um Aparelho de Linguagem[3], tendo como fundamento as chamadas associações de linguagem[4].

O que se pretende aqui é uma apresentação geral das principais noções desenvolvidas neste texto a fim de ser caracterizado o funcionamento Aparelho de Linguagem proposto pelo autor. Será analisado, então, o que foi trazido de novo para o debate acerca da linguagem, tendo como referência o que diz ser a aparência de uma Coisa[5] utilizado por Freud ao caracterizar a relação entre linguagem e percepção.


2.1.1 A concepção localizacionista


Freud discute duas suposições muita aceitas na Neuropatologia alemã das afasias. A primeira refere-se à diferenciação das afasias causadas pela destruição dos centros corticais daquelas provocadas pela destruição das vias de condução. A segunda, por sua vez, refere-se à relação recíproca entre cada um dos centros corticais ligados às funções da linguagem. Como situa o autor, ambas estão relacionadas a uma ideia central: a noção de que as funções do sistema nervoso (como as funções da linguagem) estão circunscritas a regiões anatomicamente determináveis.

Essa doutrina localizacionista[6] implica que cada função da linguagem seja relacionada diretamente a um campo anatômico (cerebral) específico. Com a danificação deste, supunha-se a ocorrência de uma deficiência específica no exercício da função relacionada à área lesionada. É precisamente o que Freud comenta ser o resultado e a promessa dos estudos de Carl Wernicke, notadamente em seu escrito “O complexo de sintomas afásicos” (WERNICKE, 1874). Ainda que para este autor apenas as funções mais elementares podem ser remetidas a localizações específicas, Freud diz que, segundo esta perspectiva, as células reteriam o que chama de imagens de lembrança[7] de sons e dos movimentos da linguagem, cujas associações possibilitariam o exercício da linguagem e, também, a emergência da função da memória.

Sob essa perspectiva, o Aparelho de Linguagem, como nomeia Freud, é entendido como um sistema de centros corticais contendo imagens de lembrança específicas (visuais, acústicas, motoras, etc.), sendo eles associados entre si por vias de condução. Cada lesão deve acarretar, então, uma forma específica relativa à região anatômica atingida, a depender também do fato de o dano ter sido causado ou aos centros corticais ou às vias de condução. Segundo Freud, foi Ludwig Lichtheim, seguindo a linha de raciocínio de Wernicke, que diferenciou as formas de afasias, relacionando as lesões anatômicas com seus respectivos efeitos sintomáticos (cito: afasia cortical motora, afasia subcortical motora, afasia transcortical motora, afasia cortical sensória, afasia subcortical sensória, afasia transcortical sensória, afasia de condução de Wernicke)

Porém, ao discutir essa posição defendida pelos autores citados, Freud levanta um fato importante:


[...] na maioria das vezes cada uma das funções de linguagem encontra-se prejudicada em diferentes graus, em vez de algumas estarem totalmente anuladas e outras permanecerem incólumes. (FREUD, 2013, pp.27)


Este fato é notável por representar uma dificuldade em explicar como lesões específicas em uma área cortical delimitada podem ocasionar uma diminuição funcional referente a outras áreas preservadas. Ainda que seja possível sempre atribuí-la a lesões combinadas em diferentes campos anatômicos, a facilidade em o fazer deixa uma grande margem para a arbitrariedade (FREUD, 2013, pp.27).

Ainda, a impossibilidade de situar a afasia de condução e sua respectiva parafasia[8], de grande importância para a teoria defendida por Wernicke, revela uma nova dificuldade para a tese localizacionista. Como ela teria por característica a ruptura da condução (A-M) entre o centro sensório (A) e o centro motor (M) - complexo esse responsável pelo aprendizado da fala, ou seja, pela reprodução de um som de palavra percebido – era de se esperar não uma parafasia, mas uma total incapacidade na repetição do que foi ouvido, preservando-se o falar espontâneo e a compreensão de palavras, o que, segundo Freud, jamais fora observado. Conclui então o autor que:


[...] a repetição (preservada intacta a compreensão das palavras) é sempre bem-sucedida quando o falar espontâneo é possível, ou seja, a conclusão de que a via pela qual se dá a fala é idêntica pela qual se dá a repetição. (FREUD, 2013, pp. 30)


Ao continuar tentando resolver esse problema da parafasia, Freud mostra que, na doutrina localizacionista de Wernick e Lichtheim, não há diferença clínica entre a suposta destruição do centro sensório A, responsável pelo falar espontâneo (que geraria uma parafasia), e a destruição da via de condução A-M, que deveria gerar uma ausência na capacidade de repetição (gerando também um parafasia). Isso permite Freud fazer uma constatação importante contra as suposições que se propôs discutir. Cito-a:


A destruição de um assim denominado centro se caracteriza meramente pela ruptura concomitante de várias vias, e uma tal suposição pode ser substituída pela suposição de lesão de várias vias de condução, sem que se deixe, com isso, de ter devida conta a localização específica de funções psíquicas nos centros. (FREUD, 2013, pp. 36)


Essa colocação questiona a própria ideia de diferenciar as afasias corticais das afasias de condução. Ao postular que uma lesão de um centro pode ser considerada como a lesão de várias vias de condução, anuncia uma possível equivalência entre tais centros e suas vias de condução, inviabilizando a diferença postulada entre os dois tipos de afasias mencionadas. Freud ainda complementa essa discussão aprofundando o debate a respeito da afasia transcortical motora, mostrando a incompatibilidade das lesões anatômicas e de seus resultados esperados.


2.1.2 Explicação funcional e a noção de associação


É neste ponto do debate que o autor do presente texto aponta um caminho alternativo. Ele consiste em pensar o estado funcional[9] do Aparelho de Linguagem como um todo, sem se comprometer com a ideia de relações unívocas entre centros corticais e determinadas funções. Apoiando-se inicialmente em Charlton Bastian, Freud pensa os distúrbios a partir de danos funcionais[10] (como a redução de excitabilidade) sem a necessária lesão orgânica correspondente. Isso implica pensar que, mesmo num caso de lesão, o Aparelho de Linguagem reage como um todo solidário[11], apresentando uma redução geral no seu estado funcional. Como diz o autor:


[...] ele [o aparelho de linguagem] responde à lesão parcialmente destrutiva com um distúrbio de função[12] que também poderia surgir em virtude de um dano imaterial. (FREUD, 2013, pp.51)


É revelado, assim, que não apenas o aparelho responde a algum tipo de dano através de um distúrbio funcional, ou seja, responde com uma modificação em seu funcionamento global, mas também que esse dano não precisa ser de natureza material/anatômica. Isso permite que seja desvinculada a ideia de que cada função esteja circunscrita a uma região, respondendo ela, e somente ela, por aquela tarefa específica. Este fato já fora anunciado por Freud em uma passagem anterior de seu texto, em que comenta sobre uma característica da parafasia. Cito:


[...] a parafasia observada em pessoas enfermas em nada se diferencia daquela confusão de palavras, nem sua mutilação, que a pessoa saudável pode observar em si mesma em função do cansaço, da atenção dividida ou por influência de afetos perturbadores. (FREUD, 2013, pp.31)


Cabe ressaltar, porém, que a tese localizacionista não fora completamente abandonada pelo autor. O que se coloca para Freud é sua insuficiência para explicar todo e qualquer distúrbio de linguagem. É proposto no texto uma forma intermediária de análise das afasias, em que aspectos localizacionistas são relevantes em alguns distúrbios, mas que em outros casos apenas a explicação funcional se revela frutífera.

Na continuação de sua discussão, Freud questiona de forma contundente outra tese importante: a presença de representações[13], também chamadas de imagens de lembrança (acústicas, visuais, motora), em células distintas. Como questiona o autor:


É justificado fazer uma fibra nervosa, que durante toda a extensão de seu percurso fora somente uma estrutura fisiológica submetida a modificações fisiológicas, mergulhar sua terminação no psíquico e dotar essa terminação de uma representação ou de uma imagem de lembrança? (FREUD, 2013, pp.78)


Ou seja, será lícito supor um salto do âmbito anatômico-fisiológico para o psíquico apenas no decorrer da extensão de uma fibra nervosa? O que se questiona, portanto, é a confusão ao dotar algo do âmbito orgânico, como uma célula, de características de um domínio heterogêneo, como uma representação psíquica. O autor é enfático neste caso:


Os processos fisiológicos não cessam assim que os psíquicos tenham começado; ao contrário, a cadeia fisiológica prossegue, só que, a partir de um certo momento, a cada membro dessa cadeia (ou membros isolados dela) corresponde um fenômeno psíquico. (FREUD, 2013, pp.78)


Isso implica pensar a relação entre a fisiologia e a psicologia não em uma continuidade causal, tal como expressa pela tese localizacionista, mas como processos paralelos, como um concomitante dependente[14] (FREUD, 2013, pp.78). Como explica o autor, a representação[15] se apresenta como algo simples e facilmente discernível para a Psicologia, tendendo, então, a se fazer do seu correlato fisiológico também algo simples e localizável, transposição esta que não é justificável. Neste aspecto, Freud postula o correlato fisiológico dessa representação, antes localizada na célula, como algo da natureza de um processo[16] que, após ter se desenrolado, acarreta uma mudança no córtex cerebral. Essa modificação tornaria possível a chamada lembrança[17].

É importante pontuar que neste momento o autor não postula que a essa modificação corresponda algo psíquico, uma vez que, se correspondesse, essa lembrança teria que ser da ordem de uma lembrança latente (fora do campo da consciência), o que não é aceito por Freud ainda. O que é entendido é que, caso ocorra a estimulação do mesmo estado cortical, surgirá novamente o psíquico em forma de imagem de lembrança (FREUD, 2013, pp. 80).

Com esta forma de entender a natureza da representação, o autor tira uma conclusão importante. Sendo o correlato fisiológico da representação algo da ordem de um processo, ela não se encontra em repouso em um ponto específico. Esse fato por si a torna indiscernível, no âmbito fisiológico, das suas associações, pois estas também têm como correlato processos não estabilizados em um ponto anatômico único. Assim, a diferença entre centros responsáveis pelas representações e vias responsáveis pelas associações não é mais sustentável, uma vez que as associações têm como correlato processos de mesma natureza que as representações antes separadas topicamente. Fica assim aproximada a noção de representação com a de associação, permitindo ao autor reconhecer que sensação[18] [19] e associação são dois nomes para um único e indivisível processo fisiológico. Como ressalta Freud:


Sabemos que ambos os processos são abstraídos de um processo único e indivisível. Não podemos ter sensação alguma sem associá-la imediatamente; se podemos ainda conceitualmente separá-las de forma tão afiada, na realidade elas se prendem a um único processo que, começando em uma área do córtex, difunde-se por sobre a sua totalidade. A localização do correlato fisiológico é, então, a mesma para a representação e a associação. (FREUD, 2013, pp.80)


Ainda, após aproximar de forma direta as associações e as representações, o autor fornece um exemplo em que fica evidente a primazia das associações em detrimento da concepção de elementos localizáveis topicamente: a aquisição de linguagens novas por parte de um indivíduo.

Neste caso, Freud aponta para o fato de que o Aparelho de Linguagem funciona justamente por associações de linguagem, sendo capazes de superassociação[20], invalidando a ideia de uma localização específica para cada língua nova aprendida (FREUD, 1981, pp.84). Isso significa que as primeiras associações de linguagem adquiridas no começo da vida (notadamente na aquisição da língua materna) são capazes de uma nova associação no aprendizado de línguas estrangeiras, sendo estas as primeiras a serem afetadas por danos relativos ao funcionamento do Aparelho de Linguagem. Fica indicado, assim, que seria por meio de associações que vai se constituindo este aparelho, sendo marginalizada a questão da localização específica de elementos psíquicos - as representações - em células ou campos corticais específicos. Esse ponto de vista fica mais evidente com a respectiva colocação de Freud:


Rejeitamos, pois, a suposição de que o aparelho de linguagem seja constituído de centros distintos, separados por territórios corticais sem função, e, além disso, que as representações (imagens de lembrança) que servem à linguagem ficam armazenadas em determinadas áreas do córtex, [...] resta-nos agora expor a ideia de que o território da linguagem[21] no córtex é um distrito contínuo, dentro do qual as associações e transferências, nas quais se baseiam as funções da linguagem, ocorrem em uma complexidade cujos detalhes exatos escapam à compreensão. (FREUD, 2013, pp.86)


Ainda, sobre o caráter associativo relativo à aquisição da linguagem, Freud diz:


Aprendemos a linguagem dos outros[22] na medida em que nos esforçamos para tornar a imagem de som produzida por nós o mais semelhante possível ao que deu ensejo à inervação da linguagem. Aprendemos assim a repetir[23]. (FREUD, 1891[2013], pp.98)


Isso conduz ao postulado de que as imagens de som produzidas por nós na tentativa de repetir o que foi ouvido têm origem no outro. Portanto, elas seriam estranhas ao sujeito, tendo neste outro o veículo de transmissão dessas imagens a serem repetidas pela inervação[24] da sua representação de movimento da fala[25]. É, portanto, a partir dessa repetição que se formam as primeiras associações de linguagem.

Dessa forma, como resultado desse encaminhamento teórico, o autor conduz a uma interpretação relativa às afasias que não mais privilegia uma área cortical ou uma via de condução específicas, mas sim a interrupção de associações e seu relativo dano a uma constante funcional do aparelho. Essas associações danificadas irão responder pelos efeitos causados por uma possível lesão, tendo como mais resistentes as associações efetuadas em tempos mais remotos, que servem de base para as outras associações futuras (chamadas de superassociações). É o que o autor atesta ao dizer que:


[...] em caso de lesão orgânica, o aparelho de linguagem provavelmente será em certa medida danificado como um todo e será impelido ao retorno às formas de associação primárias, mais seguras e circunstanciadas. (FREUD, 2013, pp.101)


2.1.3 Dualidade do campo das associações de linguagem


Após efetuada a análise a respeito das teses localizacionista e funcional, Freud irá propor como se pode pensar o funcionamento do chamado Aparelho de Linguagem. Para esta tarefa, ressalta que irá manter separado, tanto quanto possível, o âmbito orgânico, ou anatômico, do psicológico. Essa separação já se encontra anunciada em sua crítica ao localizacionismo, postulando um paralelismo fisiológico/psicológico. Ela será reforçada, agora, pela proposição de um esquema que:


[...] prescinde das relações anatômicas espaciais exatas e que deve somente apresentar as relações entre cada um dos elementos das associações de linguagem entre si. (FREUD, 2013, pp.107)


Seu fundamento será as associações de linguagem, tendo o conceito de representação um papel central. É a respeito deste campo das representações que Freud postula uma divisão importante entre dois tipos distintos: representação de palavra[26] e representação de objeto[27].

Analisando o que chama de representação de palavra, Freud comenta que ela seria formada por um intrincado processo associativo[28] composto por diversas imagens componentes. Elas seriam as imagens de som, imagens visuais das letras, imagens de movimento da fala e imagens de movimento da escrita. Porém, esse processo associativo da representação de palavra, como diz o autor, só obtém significado[29] com sua conexão[30] [31] (e por que não chamar de associação) com a representação de objeto. Esta, por sua vez, é formada por um complexo associativo[32] composto de representações visuais, acústicas, táteis, sinestésicas, entre outras. Porém, essa representação de objeto só se apresenta como tendo aparência de uma Coisa[33][34], como diz Freud, por estar aberta a novas impressões. Como expressa o autor:


[...] a aparência de uma Coisa, para cujas características concorrem aquelas impressões dos sentidos, somente se constitui na medida em que abarcamos, na soma das impressões dos sentidos que apreendemos de um objeto, a possibilidade de uma grande sequência de novas impressões na mesma cadeia associativa. (FREUD, 2013, pp.103)


Como diz Freud, a representação de objeto não se apresenta como um todo fechado ou mesmo passível de ser fechado (FREUD, 2013, pp.103), apenas a representação de palavra apresenta tal característica de se fechar em uma unidade. Essa unidade da representação de palavra proposta pelo autor pode ser compreendida a partir da proposição de que a palavra seja a unidade de função da linguagem (FREUD, 2013, pp.97), sendo a partir da referência a unidade gramatical da palavra o que possibilita a afirmação de que a representação de palavra constitui uma unidade fechada. A representação de objeto, por sua vez, não poderia por si só formar uma unidade pela simples justaposição de imagens perceptivas, necessitando a associação de novas impressões à sua cadeia associativa para que, então, adquira o caráter de Coisa, ou seja, para que sejam percebidos objetos enquanto unidades perceptivas discretas.

Para tentar melhor compreender a implicação desta constatação de Freud, cabe aqui um maior aprofundamento deste problema. Como afirmado, seria a representação de objeto que forneceria o significado para as representações de palavras a elas associadas. Fica indicado, dessa forma, que as palavras só adquirem sua função significativa de poderem se referir a conteúdos perceptivos a partir dessa conexão. Deve-se considerar, porém, que esses conteúdos só adquirem a capacidade de referência caso o campo perceptivo seja constituído por objetos discretos. Isso se deve ao fato de o campo das representações de palavras ser formado por unidades delimitadas, as palavras, e que para que essas possam se relacionar com o campo perceptivo, este não pode ser um todo amorfo, mas deve ser dotado de alguma segmentação pela qual as palavras possam se referir a objetos distintos[35].

Essa necessidade de o campo das imagens perceptivas da representação de objeto ter um caráter discreto coloca um problema. Como indica Freud, as representações de objeto tem uma relação equívoca com os objetos dos quais são imagens[36], o que evidencia a heterogeneidade entre as imagens perceptivas e a unidade objetiva que as referencia. Essa separação pode ser compreendida tendo em vista a própria natureza limitada da percepção em abarcar os objetos em sua totalidade. Não seria possível buscar a unidade do objeto pela simples correlação de imagens perceptivas de seus perfis, pois seria necessário pressupor a unidade mesma desse objeto para que seus perfis pudessem ser relacionados entre si para formarem a unidade buscada[37]. Portanto, a unidade objetiva está inserida num ciclo vicioso, em que a possibilidade de serem percebidos objetos separados e discretos necessita que sua unidade já seja concebida antes de serem correlacionadas as imagens de seus perfis. Esse quadro só pode ser superado, portanto, caso seja acrescentado às associações da representação de objeto algo heterogêneo ao seu campo perceptivo.

É neste ponto que a unidade da representação de palavra adquire sua importância. Está claro que algo deve ser acrescentado ao complexo associativo das representações de objeto. Uma solução possível seria a associação com impressões de outra natureza que não de origem em simples percepções de perfis de objetos. Pode-se conjecturar que essas novas impressões são justamente aquelas contidas na representação de palavra. Como visto, elas têm origem num intercâmbio estabelecido entre o sujeito e um outro, sendo possível postular sua natureza diversa em relação às imagens perceptivas da representação de objeto. Ainda, elas possuem, na referência à entidade gramatical da palavra, a unidade requerida pelas representações de objeto.

Assim, através da conexão das representações de objeto e de palavra, é formada uma via de mão dupla para o funcionamento da linguagem. Essa conexão não apenas fornece ao campo perceptivo a segmentação em unidades discretas, chamada pelo autor de aparência de Coisa, como possibilita concomitantemente a referência para as unidades gramaticais das palavras. O que se coloca, portanto, é que a aparência de Coisa reúne nesta Coisa[38], a capacidade significativa da linguagem e a unidade necessária para a constituição de objetos perceptivos, ainda que essa unidade seja heterogênea ao campo das percepções e da linguagem[39].


2.1.4 Considerações Finais


É uma maneira nova de se pensar o campo da linguagem que se apresenta ao final desse texto. Partindo da crítica à tese localizacionista, Freud propõe um domínio da linguagem independente, dissociando-o de sua correspondência direta à anatomia cerebral e aproximando-o à Psicologia. O conceito de representação continua sendo central para sua compreensão, porém, como visto, passa a ser inseparável das associações que a compõem, levando a noção de associação a não ser mais a relação direta entre elementos discretos (como entre representações contidas em células), mas sim o fundamento mesmo da representação e de sua função. Elas irão fundamentar a emergência da linguagem a partir do contato com outro sujeito, tendo como seu mecanismo o movimento de repetição a partir de impressões recebidas por essa alteridade.

O Aparelho de Linguagem é entendido por Freud como um todo solidário, o que implica caracterizá-lo como uma rede de associações e processos. Esse modo de caracterização aproxima-o a um sistema, em que as associações têm primazia em relação aos elementos associados (representações que são elas mesmas associações), respondendo a modificações sofridas de forma global[40].

Ainda, o campo das associações de linguagem que formam a rede deste sistema apresenta uma dupla face. Ele é resultado da associação entre as representações de objetos, formadas por um complexo associativo de imagens perceptivas, e as representações de palavras, formada por um processo associativo que tem como referência unidades gramaticais. É essa superassociação de ambas as representações que conduz a emergência do domínio da Coisa aqui delimitado. Esse domínio reúne em si a possibilidade referencial da linguagem, dotando-a de significado, e a unidade necessária à aparência de Coisa dos objetos presentes no campo perceptivo. Entretanto, o campo da Coisa se mostra tanto heterogêneo à percepção, não podendo ser apresentada sua unidade numa simples percepção, quanto à linguagem, não podendo ser encontrada sua referência significativa dentro do próprio campo das representações de palavra. A Coisa pela qual a referência das representações de objeto e de palavras se estabelece fica, portanto, neste ponto até aqui indeterminado.

O questionamento de qual seria o estatuto desse conceito tão importante na articulação entre campo das imagens perceptivas e o domínio da linguagem se impõe. É o que será discutido a seguir com a análise do texto do “Projeto” de Freud.


2.2 O Projeto


A partir da exposição feita a respeito do texto "Sobre a concepção das afasias" (FREUD, 2013), será trabalhado o conceito de a Coisa[41] no texto "O Projeto" (FREUD, 2011), buscando articulá-lo com a questão da linguagem. Esse texto, publicado posteriormente à morte do autor, permitirá aprofundar pontos específicos da presente discussão. Notadamente, o reaparecimento do conceito de Coisa e sua relação com a percepção abrirá um caminho possível para a introdução do campo do desejo, campo este fundamental no decorrer da obra psicanalítica freudiana. Para isso será apresentado, de forma breve, um resumo das teses centrais do texto, tal como efetuado com o texto anterior, explicitando, de forma concatenada, as novas noções que o texto introduz.

Cabe salientar que não se trata de uma continuação linear e direta da discussão apresentada no texto sobre as afasias. Ambos os textos partem de campos argumentativos distintos, não sendo possível descrever um simples desenvolvimento de teses igualmente presentes. O propósito será abordá-los de forma que ambos contribuam para a exposição de uma problemática presente no debate acerca da linguagem, sendo possível, posteriormente, a proposição de uma articulação entre ambos.


2.2.1 Sistema Nervoso


Freud apresenta, no "Projeto", as características do que chama de Sistema Nervoso[42], partindo de dois princípios de funcionamento: o de inércia[43] e o de constância. O primeiro diz respeito à tarefa do sistema de se desfazer da quantidade interna do aparelho (Qn) a partir da descarga[44], tendo como primeiro recurso o movimento reflexo[45]. O segundo é uma modificação do primeiro, no qual se busca agora manter o nível de Qn o mais baixo possível e constante. São respectivamente identificados com a função primária e a função secundária do sistema nervoso. Considerando isso, a tendência imperativa do aparelho neuronal de se desfazer das quantidades internas acarretará no reconhecimento do aumento da tensão interior como um desprazer[46] (ou a dor[47]), e a sua diminuição através da descarga, como prazer[48].

Ainda, Freud comenta que a modificação do princípio de inércia no princípio de constância ocorre, em seres mais complexos, pelo advento de estímulos internos (fome, respiração e a sexualidade) que também buscam descarga. Entretanto, ao contrário do que ocorre com os estímulos externos, a interrupção da estimulação para estímulos internos não pode ser empreendida através da fuga ao estímulo[49], inviabilizando o movimento reflexo (como o fechar os olhos diante de uma forte luminosidade). Dessa forma, devido a essas imposições representadas pelas estimulações endógenas, que são denominadas por ele de urgência da vida[50], é demandada uma ação específica[51] do indivíduo (como a busca de alimento), exigindo, portanto, que seja suportada uma Qn interna passível de ser utilizada para este fim.

É neste contexto do funcionamento do aparelho neuronal que o autor descreve a existência de 3 tipos diversos de neurônios, φ, ψ e ω. Eles são respectivamente responsáveis pela percepção[52], memória[53] e pela consciência/qualidade[54] (responsável pelos signos de qualidade[55] e pelo sentimento prazer/desprazer). A despeito dos neurônios responsáveis pela qualidade, ω, que se relacionam com o que é chamado de período dos estímulos, os outros dois têm como diferença apenas a permeabilidade com relação a passagem de Qn. Os neurônios perceptivos φ são completamente permeáveis à sua passagem, enquanto os responsáveis pela memória, ψ, são impermeáveis até um certo nível de Qn. Essa diferença é consequência do que Freud descreve como as barreiras de contato[56] existentes entre os neurônios e a resistência que elas imporiam ao escoamento das quantidades. Essas resistências são modificadas com a passagem de Qn pelas vias neuronais, tornando-se cada vez mais facilitadas. Elas engendram diferenças de facilitações entre diversos neurônios, sendo responsáveis pela memória no sistema ψ[57].

Além disso, a possibilidade de retenção de Qn por neurônios ψ do núcleo[58] produzindo diferenças nas facilitações, faz advir o que Freud denomina o Eu[59]. Este é caracterizado pela totalidade dos investimentos ψ em um determinado momento, atuando como reserva[60] de Qn para a realização da função secundária (ação específica). Com o propósito de evitar experiências de dor e possibilitar as de satisfação[61], ele busca desfazer-se de seus investimentos através de investimentos laterais[62], facilitando as barreiras de contato de determinados neurônios e, portanto, influenciando as vias de descarga. Esse processo é nomeado por Freud de inibição[63].

Com o investimento dos neurônios ψ do núcleo (responsáveis pela recepção dos estímulos endógenos), é exercida uma demanda pela descarga dessa Qn investida. Como originalmente o indivíduo não é capaz de produzir a ação específica exigida por esses estímulos (como a ação de procurar comida, no caso da fome), o primeiro modo de ação utilizado é o que Freud denomina modificação interna[64] (como o choro e o grito). É a partir dessa modificação interna, tornada significante para um outro indivíduo, que este tem sua atenção voltada para o sujeito, ajudando-o na modificação do meio necessária para a efetuação da descarga. Assim, o movimento reflexo (ato de mastigar, p.ex.) é desencadeado após a modificação empreendida no ambiente através da ajuda de um estranho[65] (procura por comida, p.ex.), fechando-se um ciclo caracterizado como experiência de satisfação[66]. A partir disso, ocorre no sistema neuronal do indivíduo:


1) uma descarga durável se realiza, e assim, elimina-se o impulso[67] que causou desprazer em ω; 2) produz-se no pallium o investimento de um (ou de vários) neurônio que corresponde à percepção do objeto; 3) em outros pontos do pallium chegam as informações sobre a descarga provocada pelo movimento reflexo desencadeado após a ação específica. Entre esses investimentos e os neurônios do núcleo se forma uma facilitação.[68] (FREUD, 2011, pp. 59)


Dessa forma, após a experiência de satisfação, ocorre uma facilitação das barreiras de contato entre duas séries de neurônios: o complexo investido constituído pela imagem do objeto que possibilitou a satisfação e a imagem do movimento reflexo, e os neurônios investidos do núcleo. Essa facilitação é realizada pelo que Freud chama de uma lei fundamental da associação por simultaneidade[69] dos investimentos, fundamento de todas as ligações entre os neurônios ψ. Esse princípio diz que, quando dois neurônios ψ, investidos por fontes internas, são também simultaneamente investidos através de φ, ocorre a chamada facilitação nas barreiras de contato entre eles.

A partir desta lei da associação, torna-se possível esboçar o fundamento pelo qual os processos neuronais se efetuam. Isso se deve ao fato de ela estabelecer a natureza das ligações presentes no sistema nervoso a partir de um princípio associativo. Está indicado que essas ligações estão inseridas no contexto da experiência de satisfação, articulada, por sua vez, à alteridade que primeiro possibilitou sua efetuação. Como foi visto, ainda, a introdução da alteridade não se dá de forma espontânea, mas mediada pela chamada modificação interna tornada significativa (caráter de mensagem) para um receptor (outro sujeito), engendrando uma relação de natureza linguística, ainda que primitiva[70].


2.2.2 O desejo, o pensamento e a Coisa


A partir da explicação a respeito da experiência de satisfação, cabe explicitar o que ocorre com o reaparecimento do estado de desejo[71]. Este é caracterizado pelo reinvestimento dos neurônios do núcleo associados com a imagem do objeto de satisfação e com as imagens do movimento reflexo associadas. Devido à atração exercida pelo estado de desejo para o objeto de desejo[72], a primeira das imagens a ser afetada pela reanimação do desejo[73] é justamente aquela do objeto desejado[74]. Se esse reinvestimento transcorrer sem qualquer obstáculo


[...] no estado de desejo, o investimento da imagem mnêmica agradável ultrapassa amplamente em Qn o investimento realizado numa simples percepção, de maneira que uma facilitação particularmente boa conduz [o investimento] do núcleo ψ para o neurônio correspondente do pallium.[75] (FREUD, 1895[2011], pp. 67)


Esse investimento conduzido aos neurônios ψ do pallium, ou seja, aos neurônios ψ associados aos neurônios perceptivos, leva à alucinação da imagem mnêmica investida, ou seja, presentifica o objeto como uma representação de fantasia[76]. Como salienta Freud, caso a ação específica não ocorra logo na sequência dessa alucinação, ela é seguida por desilusão e desprazer, uma vez que não foi possibilitada a realização da descarga permanente por um objeto efetivamente presente.

Todo esse complexo da experiência de satisfação coloca, então, o funcionamento do aparelho como algo autônomo em relação à consciência, procurando se satisfazer pelas vias mais curtas, ainda que seja de forma alucinatória. Esse movimento direcionado para o erro/engodo da percepção alucinatória evidencia uma questão importante: como diferenciar percepção de representação, ou seja, como fazer coincidir o objeto da percepção com a imagem mnêmica do objeto que possibilitou a vivência de satisfação, a fim de evitar a alucinação e o desprazer a ela relacionado?

Para responder essa pergunta é de fundamental importância retomar a compreensão acerca do processo de inibição empreendido pelo Eu. Como visto, a fim de evitar a liberação de desprazer gerado pelo investimento alucinatório, o Eu atua através do investimento lateral, inibindo as vias de escoamento de Qn que levam ou à reativação de imagens mnêmicas hostis ou ao investimento em demasia de imagens mnêmicas do objeto de desejo. A partir dessa inibição, uma descarga em ω é efetuada, e sua informação é, para ψ, um signo de realidade[77] do objeto na percepção. Esse critério de realidade a partir das descargas efetuadas em ω é efetivo, pois ocorre sempre que há percepção do exterior e apenas em intensidades muito elevadas em ψ.

Esse campo de ação do Eu é, então, o que impede que ocorra um investimento muito forte da imagem mnêmica do objeto, elevando a tensão em ψ, o que acabaria resultando na emissão do signo de realidade de forma equivocada, como acontece na alucinação. Com a inibição, fica estabelecido, então, um critério para a diferenciação entre a percepção e o simples investimento de uma imagem mnêmica (memória[78]).

Entretanto, o problema não é resolvido inteiramente. Deve-se explicitar o mecanismo de aferição da identidade entre a percepção e o objeto de desejo para que seja sinalizado o signo de realidade. É a busca pela identidade entre o complexo perceptivo e o investimento de desejo que caracteriza o processo do pensamento reprodutor[79]. Ele é o resultado da ação de inibição do Eu provocada pela dessemelhança parcial existente entre a percepção e o investimento de desejo. Como diz Freud, ocorre, então, a decomposição do complexo perceptivo em dois elementos: o neurônio A, que se mantém idêntico a si mesmo, e o neurônio B, que normalmente varia (FREUD, 2011, pp. 79). O neurônio A é nomeado de a Coisa[80], e o B, sua propriedade ou seu predicado[81] [82]. A partir dessa decomposição, designada como julgamento[83], é introduzido o processo pelo qual, a partir de um investimento de desejo (complexo neurônio A + Neurônio B, p.ex.), será buscada, na percepção de um segundo complexo (neurônio A + neurônio C), a identidade em relação ao primeiro, liberando, assim, o signo de realidade e sua respectiva descarga motora.

Fica claro, então, que a busca de identidade tem como finalidade a ação que conduz da percepção de C à de B. O exemplo dado por Freud é esclarecedor. O infante, ao buscar o seio materno, encontra-se com ele de perfil (neurônio A + Neurônio C), porém, é a vista de seu mamilo (neurônio A + Neurônio B) que o levará a desencadear a ação de mamar e, assim, satisfazer seu desejo. Com isso, uma ação motora será desencadeada a fim de ele se encontrar de frente com o seio materno, alcançando a identidade perceptiva desejada. Fica, dessa maneira, caracterizado o chamado pensamento reprodutor[84]. Como salienta o autor:


O pensamento reprodutor tem, assim, um objetivo prático e um fim biologicamente constatado, a saber, de retornar uma Qn migrante da percepção excedente ao investimento em falta dos neurônios.[85] (FREUD, 2011, pp. 83)


Dessa forma, o pensamento tem um fim prático por permitir o reencontro com o objeto desejado, e um fim biológico ao possibilitar a satisfação pela via da ação específica, respondendo às urgências da vida.

Ainda, esse processo do pensamento reprodutor é complementado por um outro: o pensamento reconhecedor[86]. Este entra em cena quando a percepção não coincide em nada com o investimento de desejo, sendo efetuado um esforço de reconhecimento do objeto percebido, sem ter como fim a emissão do signo de realidade.

Para exemplificar esse pensamento reconhecedor, o autor nos fornece um exemplo interessante. A partir da percepção de um objeto que seja a imagem de um semelhante[87], ocorre a decomposição do complexo perceptivo. De um lado, estarão os traços novos e incomparáveis, como os traços do domínio visual do objeto; e do outro, as imagens de movimento do objeto que estarão associadas às lembranças de movimento, sendo reconhecidas a partir da inervação das próprias imagens de movimento[88]. Assim, o chamado complexo do semelhante também será composto de 2 elementos: um, constante, permanecendo unido como Coisa; e outro, que pode ser compreendido pelo trabalho de rememoração[89]. Como diz Freud,


Essa decomposição de um complexo de percepção é o pensamento reconhecedor, ele contém um julgamento e termina quando este último objetivo é alcançado[90].[91](FREUD, 2011, pp. 87)


Essa frase mostra como o processo de reconhecimento está estreitamente vinculado com o julgamento. Como explicado no texto, o julgamento, que posteriormente se torna meio para o pensamento reconhecedor, ou pensamento que julga[92], está, com sua decomposição do complexo perceptivo,


[...] na origem de um processo associativo entre investimentos vindos do exterior e outros provenientes do próprio corpo, uma identificação de φ e informações internas ou investimentos.[93] (FREUD, 2011, pp. 91)


Como resume o autor, enquanto o pensamento reconhecedor busca uma identidade com um investimento do corpo, o pensamento reprodutor, antes explicitado, busca a identidade com um investimento psíquico (experiência própria) (FREUD, 2011, pp. 89). O processo de julgamento, então, estaria na base de ambos os processos de pensamento, decompondo o complexo perceptivo em um núcleo de objeto (a Coisa) e um predicado reconhecível, tendo a função prática de encaminhar a identificação de φ (percepções) e investimentos internos (desejo).

Neste contexto, cabe caracterizar o que Freud coloca como sendo o julgamento primário[94]. Nele é buscada a identidade de investimento com uma menor influência do Eu, sendo o complexo perceptivo decomposto entre algo como um núcleo de objeto[95] e uma imagem de movimento. A imagem de movimento é passível de ser reconhecida pelo investimento das imagens de movimento do próprio sujeito (valor imitativo antes citado), enquanto esse núcleo de objeto é a Coisa enquanto resíduo que é subtraído do processo de julgamento. Ainda, como mostra o exemplo citado neste tópico, essa imagem de movimento passível de ser reconhecida está primeiramente associada ao reconhecimento do semelhante que possibilitou a experiência de satisfação. Esse julgamento primário, portanto, está inserido no contexto da satisfação vivenciada pelo sujeito, apoiado na ajuda do outro.

Pode-se dizer, considerando o que foi exposto, que o complexo perceptivo do semelhante é o responsável pelo interesse original de restabelecer a satisfação uma vez vivenciada. É esse interesse que incitará o processo de pensamento. Torna-se compreensível, agora, a frase de Freud que diz ser pelo semelhante que o homem aprende a reconhecer, ou seja, que é através dele que o homem começa a constituir seus objetos enquanto interessantes para a satisfação.

Porém, o complexo perceptivo do semelhante de Freud nos informa algo a mais. Como foi visto, esse complexo seria composto por um núcleo de objeto constante, a Coisa (neurônio A), e um variável e passível de ser reconhecido, o predicado da coisa (neurônio B). Com o auxílio do Eu e de seus investimentos laterais, ocorreria um deslocamento dos elementos variáveis a fim de ser reencontrada a imagem que possibilita a descarga. Porém, esse elemento constante A, como fica claro nos exemplos anteriores, é a base de sustentação que possibilita os deslocamentos até o reconhecimento do objeto em questão.

Ao tomar o exemplo do seio materno, o elemento constante (a Coisa) seria o seio na sua totalidade, enquanto seus predicados seriam os perfis desse objeto fornecidos pela percepção. Entretanto, como a percepção só provê perfis de objetos, esse objeto totalizado jamais poderia se apresentar numa simples percepção, servindo, porém, como a unidade de referência para que as imagens remetam a um mesmo objeto buscado: o objeto de desejo.

Cabe ressaltar que, como o julgamento primário é originalmente relacionado ao contato com o semelhante, é possível situar a Coisa primeiramente como a referência para o reconhecimento, não de um objeto qualquer (como o seio), mas, sim, de um outro sujeito. Ela seria o núcleo de uma alteridade não eliminável pelas identificações operadas pelo julgamento, permanecendo assim como o resto subtraído deste processo.

Cabe, neste momento da discussão, aprofundar a natureza da relação na qual está situada a origem de a Coisa, buscando delimitar o seu estatuto na economia psíquica. Isso será realizado a partir da explicitação do mecanismo da atenção e do debate acerca da linguagem.


2.2.3 Mecanismo de atenção e associação de linguagem


O problema da linguagem é introduzido de forma explícita na terceira parte do “Projeto”, durante a explicação sobre a atenção psíquica[96] e do pensamento observador[97]. Cabe agora explicitá-los e extrair suas consequências.

O mecanismo da atenção psíquica está inserido na busca pela realidade do objeto desejado, ou seja, encontra seu modelo na experiência de satisfação. Segundo o autor, seria um mecanismo que incita o Eu a seguir as percepções e a influenciá-las. Inicialmente, as percepções excitam a consciência ω[98] (consciência de uma qualidade[99]), gerando uma descarga de excitação de ω, despertando, por sua vez, o interesse dos neurônios ψ para tais signos de descarga (também nomeados de signos de qualidade). Como resultado, ocorre então o envio de investimento do Eu em direção aos neurônios portadores dos investimentos perceptivos, estabelecendo um estado de expectativa[100]. Esse estado tem significativa importância para o auxílio na busca do objeto de desejo no campo perceptivo, uma vez que indica para o Eu qual investimento de expectativa[101] ele deve estabelecer. Esta função de indicação é justamente função dos signos de qualidade. Como diz Freud,


[...] a atenção ψ está constantemente voltada para os signos de qualidade. Esses ocorrem em neurônios pré-investidos e em quantidade suficientemente grande. As informações de qualidade, assim reforçadas, intensificam os investimentos de percepção através de suas facilitações, e o Eu aprendeu a seguir com seus investimentos de atenção o curso de movimento de associação dos signos de qualidade à percepção[102].[103] (FREUD, 2011, pp. 139)


A partir disso, pode-se resumir que o mecanismo de atenção é formado por um pré-investimento de neurônios ω que se dirigem para os neurônios perceptivos através da sinalização dos signos de qualidade. Os pré-investimentos ψ de ω, então, são redirecionados para φ, resultando na admissão de neurônios de percepção φ na massa de neurônios do Eu ao elevar seu nível de investimento. Esse aumento configura, segundo o autor, a passagem do seu estado de livre escoamento de excitação para o estado ligado[104] (característica dos neurônios ψ). Esse estado ligado é justamente o que possibilita o processo de pensamento. Por reunir um investimento elevado, ele torna possível uma corrente fraca de excitação entre os neurônios, o que é a característica dos processos de pensamento, uma vez que eles precisam de menor quantidade de excitação que um processo que leve imediatamente a uma ação motora. Assim, a realização dessa inclusão de neurônios perceptivos no Eu e, por tanto, no processo de pensamento, através de sua ligação, irá facilitar a identidade perceptiva buscada.

Como exemplo, um processo resultante da presença do mecanismo de atenção é o pensamento observador. Neste, a quantidade Q e Qn presente no neurônio sobreinvestido pela atenção escoará pelas vias de facilitação, transpondo algumas barreiras de contato até alcançarem um ou vários investimentos de lembrança[105]. Esse processo tem como finalidade o conhecimento das associações que partem de uma dada percepção através das imagens de lembrança[106] que são despertadas durante o processo de escoamento da excitação. Como diz o autor, a intenção desse pensamento é


[...] aprender tanto quanto possível os caminhos que partem de P[ercepção]; é assim que o conhecimento do objeto de P[ercepção] deve ser adquirido. Notamos que o tipo de pensamento aqui descrito leva ao conhecimento[107].[108] (FREUD, 2011, pp.141-143)


Neste contexto, notando a importância dos signos de qualidade para que o investimento ψ alcance os investimentos de lembrança corretos, Freud questiona se esses signos poderiam surgir durante o escoamento de Qn. Uma vez que os signos de qualidade só são fornecidos através de percepções, cabe, como escreve Freud, extrair uma percepção durante a passagem de Qn. Como os signos de qualidade são informações de descarga, isso seria possível caso ocorresse investimento de neurônio motor durante o escoamento de Qn, que então forneceria um signo de qualidade a partir de sua descarga. Uma vez que nem todos os investimentos são de neurônios motores, é necessário que exista uma facilitação entre os investimentos e os neurônios motores, possibilitando que ocorresse a emissão do signo independentemente do investimento em questão.

É neste ponto que Freud introduz aquilo que nomeia de associação de linguagem[109]. Segundo Freud:


Ela consiste na vinculação dos neurônios ψ que servem as representações de som e têm elas mesmas mais estreita associação com as imagens motoras de linguagem[110].[111] (FREUD, 2011, pp. 143)


Elas preenchem o requisito de fornecerem os signos de qualidade em cada um dos investimentos. Isso se deve ao fato de que o direcionamento de investimentos parciais de imagens de lembranças para as imagens de sons[112] e para as imagens motoras de palavra[113] ativam esses neurônios motores, sendo seguido então de informações de descarga, ou seja, de signo de qualidade. Se, ao invés de direcionar a atenção para o que antes eram os signos de qualidade liberados por ω, ela se direcionar para a imagem de palavra[114][115], os investimentos ψ se ligariam às lembranças que emergem durante o escoamento de Qn (lembranças essas associadas por facilitações às imagens de palavra pré-investidas). É o que o autor nomeia de pensamento consciente observador[116].

Ainda, Freud se questiona se esses investimentos por parte do Eu no processo de atenção, que tem como objeto investimentos ψ (ou seja, imagens de lembranças[117]), não poderiam resultar na produção de novas facilitações através do escoamento de Qn gerado. O que se propõe é uma separação entre a produção de memória, fruto da percepção, e a produção de um signo de descarga de linguagem[118], fruto do pensamento. Como explica Freud a respeito desses signos:


[...] eles [os signos de descarga de linguagem] colocam os processos de pensamento no mesmo plano que os processos de percepção, conferindo-os uma realidade e tornando possível sua memória.[119] (FREUD, 2011, pp. 145)


Isso pode ser interpretado da seguinte maneira. Ao conferir a possibilidade de a atenção ser guiada pelos signos de qualidade do pensamento (chamados de signos de descarga de linguagem)[120], as imagens de palavra conferem ao pensamento o estatuto de uma percepção. A partir disso, as associações resultantes do processo mesmo de pensamento tornam-se não apenas conscientes, devido à atenção direcionada para eles, mas também passíveis de memória. De acordo com Freud, uma vez possível a associação de sons intencionais a percepções,


[...] então as lembranças, desde que que a atenção [se volte] sobre os signos de descarga de som, [elas] tornam-se conscientes assim como as percepções, podendo ser investidas a partir de ψ.[121] (FREUD, 2011, pp. 147)


Tendo em vista esta discussão a respeito das associações de linguagem, Freud introduz uma nova abordagem para a modificação interna, anteriormente descrita neste trabalho. Como diz o autor, as inervações de linguagem[122] funcionam inicialmente como uma válvula para ψ, a fim de regular as flutuações de Qn, representando uma parte da chamada modificação interna (FREUD, 2011, pp. 145]. Essas inervações, assim, por despertar a atenção de um outro indivíduo, cuja ajuda é necessária para a satisfação, dotam a modificação interna de uma função secundária: a função de comunicação[123]. Como diz explicitamente o autor,


Essa via [da modificação interna] adquire uma função secundária ao chamar a atenção do indivíduo que auxilia (geralmente ele mesmo objeto de desejo) para o estado de desejo e de urgência[124] da criança, servindo então de comunicação estando assim inserida na ação específica.[125] (FREUD, 2011, pp. 147)


A evidência do seu caráter comunicativo é o fato de que a modificação interna por si só não produziria a satisfação (como o exemplo da alimentação demonstra), mas somente na medida em que ela é considerada por um outro sujeito como signo de uma necessidade a ser satisfeita. Esse outro (semelhante), então, deverá sancionar com sua atenção a modificação interna como uma mensagem a ser interpretada. Como no exemplo da fome, o choro da criança deverá ser interpretado como fome (ao invés de sede, p.ex.), realizando assim a ação específica que possibilitará a alimentação do infante.

É importante indicar que a própria modificação interna pode indicar a qualidade do objeto perceptivo. Como sublinha Freud com relação a objetos penosos para o sujeito:


Onde, por causa da dor, não se obtém um bom sigo de qualidade do objeto, a informação de seu próprio grito [modificação interna] serve à caracterização do objeto. Essa associação é, então, um meio de tornar conscientes as lembranças que provocam desprazer e de atrair a atenção para o objeto: a primeira classe de lembranças conscientes é assim criada.[126] (FREUD, 2011, pp. 147)


A modificação interna pode ser, então, relacionada diretamente às associações de linguagem. Ela serve aos propósitos da percepção ao auxiliar a caracterização do objeto, associando imagens acústicas e motoras de sons às percepções em questão. Como esse objeto é inicialmente um semelhante, através do qual o sujeito vincula sua demanda de satisfação, as associações de linguagem estão inseridas no conhecimento desse outro presente na experiência de satisfação.

As imagens acústicas, como ressalta Freud, não necessitam ter sua origem no próprio sujeito. Elas podem ser provenientes de outros objetos (como outros sujeitos), incitando a tendência à imitação. Essa tendência está intimamente relacionada à decomposição efetuada pelo julgamento no encontro com o complexo perceptivo do semelhante. Como visto no final do tópico anterior, a emergência de predicados reconhecíveis da Coisa se efetua pela coincidência das imagens de movimento do outro através de sua associação com informações de movimentos efetuados pelo próprio sujeito. Entre essas imagens, estão as de natureza sonora, sendo responsáveis pela emergência do fenômeno comunicativo previamente mencionado.

Pode-se conjecturar agora sobre a natureza de linguagem do julgamento primário, ao estar inserido no encontro com a alteridade. A modificação interna não apenas forneceu um protótipo de relação comunicativa entre dois sujeitos, mas também possibilitou que uma parte do complexo perceptivo desse encontro fosse reconhecível pela tendência à imitação. As imagens motoras que são reconhecidas e associadas pelo sujeito são justamente aquelas de sons[127] relacionadas ao contexto comunicativo estabelecido durante a experiência de satisfação. É possível postular, assim, que o reconhecimento dos objetos do mundo, enquanto significativos para a satisfação, tornou-se possível graças ao estabelecimento dessas associações de linguagem[128] que permitiram, primeiramente, o reconhecimento de uma parte do complexo perceptivo do semelhante durante o julgamento primário.

É neste contexto que o estatuto de a Coisa é recolocado em questão. Ao serem estabelecidas as associações de linguagem durante o julgamento primário, tornando reconhecível uma parte do campo perceptivo, ela se apresentaria como um núcleo significativo no limite de qualquer predicação. Núcleo significativo, pois ela é a unidade que possibilita que as percepções se associem, enquanto remetidas a um mesmo objeto, tornando-as interessantes para a satisfação; e estaria no limite da predicação, pois não é assimilável pelos movimentos de identificação operados no julgamento. Dessa forma, a Coisa enquanto tal estaria situada fora do campo perceptivo e do domínio da linguagem, permanecendo, porém, no centro dos movimentos de busca pela satisfação. Ela seria justamente o núcleo do objeto de desejo.


2.2.4 Conclusão


O que aqui pode ser entrevisto é a relação particular existente entre a o problema da percepção e sua relação com a experiência de satisfação, atravessando o campo da linguagem. Como visto, a busca de satisfação fornece o plano de fundo para o desencadeamento de uma relação de linguagem com o mundo, introduzindo para o sujeito o campo da alteridade (situado no semelhante). Ainda, a fim de solucionar o problema da realização da satisfação de um estado de desejo, o autor é defrontado com o problema do reconhecimento no mundo de objetos discretos interessantes à sua realização. Esse problema remete ao tema da percepção e do pensamento, apontando para o fato de que algo na experiência do pensamento ultrapassa o simples campo perceptivo no qual ele deve se resolver.

É neste contexto que se apresenta um termo importante para toda a discussão: a Coisa. Ela torna possível a articulação do tema do reconhecimento e da satisfação. Como explicitado, é através dela que se torna possível o reconhecimento de seus predicados perceptivos e o desencadeamento da ação motora. Ela tem como origem o contato com um outro sujeito, restando, porém, como seu resto inassimilável pelo processo de reconhecimento que, como visto, se desencadeia pelas vias das associações de linguagem. Ainda, como núcleo do objeto que torna possível o deslocamento perceptivo na busca pela satisfação[129], a Coisa é tomada como o objeto de desejo por excelência.

Dessa maneira, o problema da referência se apresenta em um contexto particular. Como o que é buscado para a satisfação encontra seu termo no encontro com o objeto de desejo, este é situado na interseção das percepções, onde deve ser reencontrado, com as associações de linguagem, que permitem seu reconhecimento. Entretanto, a Coisa se situa fora do campo perceptivo e no limite do processo de julgamento, o que faz dela heterogênea a ambos os campos das imagens e da linguagem. A referência, por tanto, é situada no limite da busca empreendida pelo desejo, tendo seu termo em um objeto que não se dispõe em sua imagem nem em sua articulação linguística - é a alteridade por excelência.


3 CONSIDERAÇÕES FINAIS


O que é, portanto, a Coisa? A resposta permanece distante. Porém o que se buscou não foi a simplicidade de uma resposta, mas a compreensão da complexidade que envolve a pergunta. A discussão de ambos os textos pôde fornecer alguns elementos para a caminhada rumo ao cerne do problema.

Na análise de seu texto “Sobre a concepção das afasias”, Freud propõe uma forma nova de se pensar o campo da linguagem. Ao situar-se na discussão a respeito dos distúrbios afásicos, propõe o modelo de um Aparelho de Linguagem. Este seria caracterizado como um sistema de associações tendo como fundamento a noção de representação, que é dividida em dois tipos distintos: a representação de palavra e a representação de objeto. Como visto, o que é colocado em questão para essa dualidade do campo representacional é a relação entre os conteúdos perceptivos e as unidades gramaticais da linguagem (representação de objeto e de palavra, respectivamente). É ao tentar situar a interconexão entre as duas que o problema da unidade perceptiva e do significado (ou da referência) se apresentam. Nesta encruzilhada, surge a Coisa.

Inicialmente, ela é apresentada como uma aparência presente no campo perceptivo (aparência de uma Coisa[130]), respondendo pela necessidade de se pensar como unidades discretas poderiam se apresentar na percepção. Este questionamento resultou na proposta de que seria a associação entre ambas representações que responderia pela articulação entre as unidades do campo perceptivo e a emergência de significado no campo da linguagem. Porém, ficou indicado que, apesar de surgir dessa associação, algo deveria permanecer fora de ambos os campos representacionais para poder responder a essa necessidade de articulação. Surgiu, assim, a questão de qual seria o estatuto desse algo situado fora da linguagem e fora da percepção.

É neste ponto que o escrito do “Projeto” pôde contribuir para a discussão. Ao estar, então, preocupado com a caracterização de um Sistema Nervoso que, no limite, explicaria os motivos da ação humana (tais como o prazer e a dor), uma nova perspectiva se abre. Advinda da experiência de satisfação possibilitada pela ajuda de um outro sujeito, a Coisa insere-se no contexto da satisfação do chamado estado de desejo. Ela situa-se nos limites do processo que permite o reconhecimento do objeto de desejo pelo sujeito, tendo a marca de uma relação primitiva com outro sujeito, relação esta de natureza de linguagem. Como visto, as mesmas associações de linguagem que permitem o reconhecimento dos objetos na busca pela satisfação são aquelas que instituem um limite para o que será encontrado. O que reside nesse limite, portanto, é o núcleo mesmo do objeto de desejo, aquilo que situa a busca em um determinado caminho[131].

O que se coloca é que a intersecção entre o domínio das imagens perceptivas e o da linguagem atravessa toda a discussão presente. Se inicialmente o problema apresentou-se a partir da elaboração da dualidade do campo representacional, num segundo momento o que se apresenta é o campo representacional atravessado pela problemática do desejo. Ainda que Freud tenha se mantido fiel ao modelo representacional em ambos os textos, o que se acrescenta é a perspectiva de situar a problemática de a Coisa presente no texto “Sobre a concepção das afasias” no âmbito do questionamento sobre os fundamentos da ação humana.

A Coisa, dessa forma, deve obter o estatuto de fundamento último de orientação da ação humana na medida em que articula uma demanda de satisfação com o processo de reconhecimento no mundo de objetos significantes para sua realização. Toda a problemática da unidade e do significado se desdobra em uma discussão de fundo ético na tentativa de esclarecer o que produz esse móvel da ação chamado desejo.


4 REFERÊNCIAS


FREUD, Sigmund. Esquisse d'une psychologie: Entwurf einer Psychologia. Toulouse: Éditions érès, 2011.


FREUD, Sigmund. Sobre a concepção das afasias: Um estudo crítico. 1. ed. Belo Horizonte, MG: Autêntica, 2013.


HEIDEGGER, Martin. Ensaios e Conferências. 8. ed. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 2012.


HEIDEGGER, Martin. Que é uma Coisa?. [S. l.]: Edições 70, 2002.


LACAN, Jacques. O Seminário - livro 1: Os escritos técnicos de Freud. 2. ed. Rio de Janeiro, RJ: ZAHAR, 1986.


LACAN, Jacques. O Seminário - livro 2: O eu na teoria de Freud e na técnica da psicanálise. 2. ed. Rio de Janeiro, RJ: ZAHAR, 1985.


LACAN, Jacques. O Seminário - livro 3: As psicoses. 2. ed. rev. Rio de Janeiro, RJ: ZAHAR, 1988.


LACAN, Jacques. O Seminário - livro 4: A relação de objeto. Rio de Janeiro, RJ: ZAHAR, 1995.


LACAN, Jacques. O Seminário - livro 5: As formações do inconsciente. Rio de Janeiro, RJ: ZAHAR, 1999.


LACAN, Jacques. O Seminário - livro 6: O desejo e sua interpretação. Rio de Janeiro, RJ: ZAHAR, 2016.


LACAN, Jacques. O Seminário - livro 7: A ética da psicanálise. Rio de Janeiro, RJ: ZAHAR, 2008.


LACAN, Jacques. O Seminário - livro 11: Os quatro conceitos fundamentais da psicanálise. 2. ed. rev. Rio de Janeiro, RJ: ZAHAR, 1985.


[1] O Aparelho de Linguagem. Ver Tópico 2.1 [2] Ver Tópico 2.2 [3] Sprachapparat. [4] Sprachassociationen. [5] Anschein eines Dinges. [6] Lokalisationslehre. [7] Erinnerungsbilder. [8] Caracterizada por Freud como uma confusão de palavras (Wortverwechslung), em que uma palavra apropriada é substituída por uma inapropriada que mantém algum grau de relação com a primeira. (FREUD, 1891[2013], pp. 41) [9] functionellen Zustand. [10] functioneller Schädigung. [11] Ganzes solidarisch. [12] Functionsstörung. [13] Vorstellungen. [14] a dependent concomitante. [15] Vorstellung. [16] der Natur eines Vorgang. [17] Erinnerung. [18] Empfindung. [19] Dado o contexto, sensação aqui parece fazer referência à emergência da imagem de lembrança a partir da repetição de um processo fisiológico. [20] Superassociation. [21] Sprachgebiet. [22] der Anderen. [23] Nachsprechen. [24] Innervation. [25] Sprachbewegungsvorstellung. [26] Wortvorstellung. [27] Objectvrstellung. [28] Assoziationsvorgang. [29] Bedeutung. [30] Verknüpfung. [31] O autor denomina essa relação de conexão entre representações de objeto e de palavra de simbólica (symbolischen), dizendo que há indícios de que essa ligação seja a parte mais facilmente exaurível do trabalho da linguagem e, em certa medida, seu ponto fraco. [32] Associationscomplex. [33] Anschein eines Dinges. [34] A aparência de coisa parece indicar no presente contexto a característica da percepção ser formada por unidades perceptivas discretas, não sendo um todo amorfo em que seria indistinguíveis diferentes unidades objetivas. [35] Como exemplo, é preciso que a percepção de uma mesa contenha sua separação com relação à cadeira para que as palavras “mesa” e “cadeira” se referiam a conteúdos perceptivos diversos. Caso o conjunto mesa+cadeira seja um todo amorfo, ou seja, não contenha objetos discretos, as unidades linguísticas “mesa” e “cadeira” não possuiriam sua capacidade significativa de se referirem a conteúdos perceptivos diferenciáveis. [36] Freud denomina agnosia ou distúrbios agnósticos o prejuízo desta relação entre as representações de objeto e os objetos (Object). [37] Retomando o exemplo da mesa, para que as imagens de seus perfis sejam relacionadas entre si, é preciso que elas sejam anteriormente concebidas como já sendo os perfis de um mesmo objeto, e, por tanto, pressupondo presença da unidade do objeto “mesa”. [38] Ding. [39] Ver Apêndice 5.1 [40] A noção de sistema é aqui empregada tendo como referência Émelie Benveniste: “L’ensemble des articulations d’une langue constitue en effet un système où tout se tient, où tout est dans une étroite dépendance. Il en résulte que si une modification se produit dans une partie du système, il y a des chances pour que tout l’ensemble du système en soit atteint, car il est nécessaire qu’il reste cohérent.” (BENVENISTE, 1966, pp.93) - “O conjunto de articulações de uma língua constitui efetivamente um sistema em que tudo se sustenta, em que tudo está em uma estreita dependência. Disso resulta que, se uma modificação se produz em uma parte do sistema, há chances de que todo o conjunto do sistema seja atingido, pois é necessário que ele permaneça coerente.” [41] das Ding. [42] Nervensystem. [43] Trägheit. [44] Abfuhr. [45] Reflexbewegung. [46] Unlust. [47] Der Schmrz. [48] Lust. [49] Reizflucht. [50] Not des Lebens. [51] spezifische Aktion. [52] Wahrnehmung. [53] Gedächtnis. [54] Bewusstsein/Qualitäten. [55] Qualitätszeichen. [56] Kontaktschranken. [57] Cabe ressaltar que Freud veta a possibilidade de a Q externa ser expressa diretamente em Qn psíquica. Como diz o autor em duas passagens distintas: “La quantité en φ s’exprime donc par la complication (Komplikation) en ψ.” (FREUD, 1895[2011], pp. 51) - “A quantidade em φ se exprime, então, em complicação em ψ”; “La Qn psychique signifie tout autre chose, qui n’est pas représenté dans la réalité, et la Q externe s’exprime effectivement en ψ par quelque chose d’autre, par la complexité des investissements.” (FREUD, 1895[2011], pp. 139) - “A Qn psíquica significa coisa completamente outra, não sendo representada na realidade, e a Q externa se exprime efetivamente em ψ por outra coisa, pela complexidade dos investimentos.” [58] Freud diferencia neurônios ψ do núcleo, responsáveis pela recepção de Q endógenas, de neurônios ψ do pallium, responsáveis pela recepção de Q exógenas através da ligação com neurônios φ. [59] das Ich. [60] Vorratsträger. [61] Befriedgung. Conceito será explicitado a seguir. [62] Seitenbesezung. [63] Hemmung. [64] inneren Veränderung. [65] fremde Hilfe. [66] Befriedgungserlebnis. [67] dem Drang. [68] “1) Une décharge durable s’accomplit, et il est ainsi mis fin à la poussée qui a créé de déplaisir en ω, 2) dans le pallium s’établit l’investissement d’une neurone (ou de plusieurs neurones) qui correspondent à la perception d’un objet, 3) les informations sur la décharge provoquées par le mouvement-réflexe déclenché après l’action spécifique arrivent à d’autres lieux du pallium. Entre ces investissements et les neurones du noyau se forme un frayage.” (FREUD, 1895[2011], pp. 59) [69] Grundgesetz der Assoziation durch Gleichzeitigkeit. [70] Tema será aprofundado no tópico 2.2.4. [71] Wunschzustandes. [72] Wunschobjekt. [73] Wunschbelebung. [74] Freud utiliza também o termo de representação desejada (Wunschvorstellung). [75] “[...] dans l’état de désir, l’investissement de l’image de souvenir aimable dépasse largement en Qn l'investissement réalisé dans uns simples perception; de sorte qu'un frayage particulièrement bon conduit du noyau ψ vers le neurone correspondant au pallium.” (FREUD, 1895[2011], pp. 67) [76] Phantasievorstellung. [77] Realitätszeichen. [78] Erinnerung. [79] reproduzierende Denken. [80] das Ding. [81] Prädikat. [82] Cabe observar que as noções utilizadas, tais como julgamento e predicação, compõem uma referência ao campo da linguagem. [83] Urteil. [84] Ver Apêndice 5.2 [85] “Le pensée reproductrice a aussi une visée pratique et une fin biologiquement constatée, à savoir ramener une Qn migrante de la perception excédante à l'investissement manquant de neurones.” (FREUD, 1895[2011], pp.83) [86] Das Erkennen. [87] Nebenmensch. [88] Freud chamou isto de o valor imitativo (Imitationswert) de uma percepção. [89] durch Erinnerungsarbeit verstanden. [90] Ver Apêndice 5.3 [91]Cette décomposition d’un complexe de perception c’est le reconnaître, elle contient un jugement et prend fin quand ce dernier but est atteint.” (FREUD, 1895[2011], pp. 87) [92] urteilende Denken. [93] “[...] à l’origine d’un processus associatif entre des investissements venant de l'extérieur et d’autres provenant du corps propre, une identification de φ et d’informations internes ou d’investissements.” (FREUD, 1895[2011], pp. 91) [94] primäre Urteilen. [95] Objektkern. [96] psychischen Aufmerksamkeit. [97] beobachtenden Denkens. [98] ω Bewusstsein. [99] Bewusstsein einer Qualität. [100] Erwatungszustandes. [101] Erwartungsbesetzung. [102] Segundo o autor, todo esse processo caracteriza para o Eu a lei biológica da atenção, sendo a Segunda Lei Biológica. Ela é enunciada pelo autor da seguinte maneira: “Lorsqu’un signe de réalité apparaître, alors l'investissement de perception simultanément présent est à surinvestir.” (FREUD, 1895[2011], pp. 157) - “Quando um signo de realidade aparece, então o investimento de percepção simultaneamente presente é sobreinvestido.” [103] “[...] l’attention ψ est constamment tournée vers les signes de qualité. Ceux-ci s’effectuent donc sur des neurones pré investi et en quantité suffisamment grande. Les informations de qualité ainsi renforcées augmentent par leur frayage les investissements de perception, et le Ich a appris à faire suivre à ses investissements d’attention le cours de mouvement d’association depuis les signes de qualité jusqu’à P[ersception].” (FREUD, 1895[2011], pp.139) [104] gebundenen Zustand. [105] Erinnerungsbesetzungen. [106] Erinnerungsbild. [107] Erkennen. [108][...] d’apprendre à connaître aussi loin que possible les chemins qui partent de P; c’est ainsi que la connaissance de l’objet de P[erception] doit être achevée. Nous remarquons que le type de pensée ici décrit mène à la connaissance.” (FREUD, 1895[2011], pp.141-143) [109] Sprachassoziation. [110] motorischen Sprachbildern. [111] “Elle consiste dans le nouage des neurones ψ avec des neurones qui servent las représentations de son et ont eux-mêmes l’association la plus étroite avec des imagens de langage motrice.” (FREUD, 1985[2011], pp. 143) [112] Klangbidern. [113] motorischen Wortbildern. [114] Wortbild. [115] Imagem de palavra pode ser interpretado aqui como o complexo reunido pelas imagens de sons e as imagens motoras de palavras. [116] bewusstes, beobachtendes Denken. [117] Deve-se lembrar que a memória é entendida aqui como as diferenças de facilitações presentes em ψ. [118] Sprachabfuhrzeichen. [119] “[...] ils placent le processus de pensée sur le même plan que le processus de perception, leur confèrent une réalité et rendent possible leur mémoire.” (FREUD, 1895[2011], pp. 145) [120] Deve-se ter em mente que o pensamento é representado pelo escoamento de Q e Qn a partir da percepção, como ocorre no pensamento observador anteriormente citado. [121] “[...] alors les souvenirs, dès lors que l’attention [se porte] sur des signes de décharge de son, deviennent conscients tout comme les perception, et peuvent être investis à partir de ψ.” (FREUD, 1895[2011], pp. 147) [122] Sprachinnervation. [123] Verständigung. [124] begehrlichen und notleidenden Zustand. [125] “Cette voie acquiert une fonction secondaire en rendant l’individu secourable (généralement l’objet de voeu lui-même) attentif à l’état de désir et d’urgence de l’enfant, et sert dorénavant à l’entente, [elle] est donc insérée dans l’action spécifique.” (FREUD, 1895[2011], pp. 147) [126] "Là oú, par douleur, on n'obtenait par ailleurs aucun bon signe de qualité de l'objet, l'information de son propre cri sert à la caractéristique de l'objet. Cette association est donc un moyen de rendre conscients les souvenirs qui provoquent du déplaisir et d'attirer l'attention sur l'objet: la première classe des souvenirs conscients est [ainsi] créée. (FREUD, 1895[2011], pp. 147) [127] Responsáveis pelas associações de linguagem. [128] Ver Apêndice 5.4 [129] Rever o pensamento reprodutor no tópico 2.2.2 e Apêndice 5.2. [130] Ver Tópico 2.1.3 [131] Ver Tópico 5.5 para ver o Grafo Final em que busca-se uma articulação entre o que é proposto em ambos os textos.


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