A questão da Linguagem Neutra



1. Introdução


O debate em torno da questão de gênero não se resume apenas a uma proposta simples de classificação de suas diversas expressões, o que resultaria na formulação de um catálogo conceitual inexpressivo. Ao contrário, ele está intimamente ligado à reflexão sobre as formas de relacionamento em determinado contexto social, questionando lógicas que historicamente produzem processos de exclusão de sujeitos em vista de uma pretensa normalização da vivência sexual ou da expressão de gênero. É neste sentido que os movimentos políticos, como o feminista e o LGBTQIAP+, buscam promover modificações dessas práticas, visando assim a inclusão de sujeitos cuja identificação de gênero ou vivência sexual não se resumem ao binarismo que historicamente foi tido como normal, ou ainda, como natural.

No contexto das reivindicações desses movimentos identitários, a questão acerca da linguagem não ficou fora de um amplo questionamento, notadamente a respeito do que ela poderia perpetuar dessa lógica exclusiva. Não se trataria apenas de denunciar as práticas sociais que expressam a normatização do binarismo de gênero, mas também de apontar para o que, na expressão corriqueira da linguagem, pode perpetuar essa naturalização que se pretende ser combatida. A partir da circunscrição do que na linguagem natural conota uma lógica de exclusão, é proposta, então, uma forma de neutralizá-la em prol de uma linguagem plenamente inclusiva, que não se deixa enquadrar no binarismo masculino/feminino.

Essa proposta de uma “linguagem neutra” se realiza através de diversos sistemas, todos eles operando modificações na estrutura sintática/gramatical da língua, ou seja, na sua estrutura material, sempre tendo como finalidade a dissolução da imposição dos tradicionais papéis de gênero. Entre as diversas propostas sistemáticas para efetuar essas modificações estão a supressão da vogal marcadora de gênero nos pronomes (“sistema EL”); a adaptação do pronome neutro do latim (“sistema ILU” e “sistema ELU”); a substituição das vogais marcadoras de gênero para letras neutras, como “x” ou “@”; e a proposta de utilização da vogal “e” ao invés de “a” ou “o” para evitar a marcação de gênero das palavras.

O pressuposto é que a linguagem não é uma estrutura formal desinteressada, formada apenas sobre o pretexto de denotar uma determinada realidade natural, que no caso seria a do binarismo de gênero. Ela seria, sim, uma estrutura que conota determinadas significações, engendrando a posição de sujeitos no mundo. É neste sentido que se justifica a proposta de suprimir as marcações de gênero que conotariam uma significação excludente.

Dessa forma, assume-se que existe um viés, uma dissimetria na linguagem natural que acaba por produzir imposições quanto à identificação de gênero dos sujeitos. Além disso, entende-se que é preciso suprimir essa dissimetria, abolindo o viés identificatório, com o pretexto de que não haja qualquer forma de exclusão no campo das significações. O resultado seria uma “linguagem neutra” quanto aquilo que ela poderia conotar relativo aos papéis de gênero, engendrando uma realidade livre de imposições que marcam atualmente a linguagem natural.

Resta saber, agora, com o que este movimento pode estar comprometido, e se ele não caminha paralelamente a projetos que, quanto a seu propósito, vão no sentido precisamente oposto ao que se pretende inicialmente com a linguagem neutra. Para responder a esta questão, é necessário demarcar historicamente a linguagem como um objeto de questionamento, e mostrar como operações de linguagem, marcadamente no domínio da ciência, visam mitigar determinados problemas e como eles podem se relacionar com a proposta de uma neutralização da linguagem natural.


2. Um breve histórico


A linguagem como objeto de pesquisa passível de ser questionado quanto a sua verdade ou objetividade, surge em um contexto específico do desenvolvimento do pensamento ocidental. Se inicialmente a linguagem pôde ser dotada de evidência imediata, em que seu sentido se apresentava de forma espontânea, foi preciso que todo um contexto particular na história da Grécia antiga modificasse a relação do ser humano com a palavra, marcando decisivamente o pensamento ocidental. É este contexto histórico que deverá ser percorrido para uma abordagem ampla da questão da linguagem.

Segundo Jean-Pierre Vernan (VERNANT, 2002), com a decadência de um regime centralizado na figura do Rei divino, onde se concentrava a autoridade político-religiosa, a vida política grega passa a ser o objeto de um debate público, em plena luz do sol, na Ágora, da parte de cidadãos definidos como iguais e de quem o Estado é a questão comum (VERNANT, 2002, pp.11). O conhecimento e o sistema de valores que anteriormente eram dotados de uma significação inquestionável devido seu caráter sagrado, tornam-se objetos de questionamentos e debates entre iguais em um espaço público a fim de fundamentar o regimento da Pólis. Esse processo de distanciamento em relação ao sentido revelado da religião em direção a uma racionalização do saber, processo de laicização e racionalização da vida social (VERNANT, 2002, pp.115), faz da própria linguagem, não mais algo evidente em si mesmo dado ser o termo ritual, a fórmula justa, mas o debate contraditório, a discussão, a argumentação. Deve-se, assim, recuperar a verdade, o sentido da linguagem antes imediato, agora a partir de meios racionais, por argumentações e provas que prescindem da autoridade do mito ou de um líder religioso.

O que se tem, por tanto, é a constituição de uma nova forma de regime político, a democracia grega, concomitante ao processo de constituição dos fundamentos da racionalidade ocidental, pautadas na perda de evidência do sentido da linguagem. Agora ele reclama por justificações, demonstrações, debates. Assim é formada a pretensão de um conhecimento racional universal, tido como o horizonte, capaz de fundamentar um regime político e a organização social do mundo humano. Se o mito perde o poder, é a razão que deverá retomá-lo, devendo, portanto, reformar a relação dos cidadãos da Pólis com a palavra agora laicizada. è precisamente o que escreve Vernant:


O declínio do mito data do dia em que os primeiros Sábios puseram em discussão a ordem humana, procuraram defini-la em si mesma, traduzi-la em fórmulas acessíveis à sua inteligência, aplicar-lhe a norma do número e da medida. Assim se destacou e se definiu um pensamento propriamente político, exterior à religião, com seu vocabulário, seus conceitos, seus princípios, suas vistas teóricas. (VERNANT, 2002, pp.142)


É neste contexto que podem ser compreendidas as recentes teorizações acerca da linguagem (do século 19 em diante, grosso modo). Se ela pôde constituir um objeto próprio de pesquisa, com a constituição da linguística estrutural, ou mesmo podendo fazer de uma parte da filosofia um inquérito sobre a linguagem, como na filosofia analítica (IMBERT; ZASLAWSKY; JACQUES; ARMENGAUD; GRANGER; DEVAUX; SEBESTIK, 1988, pp.6), é porque questões como “O que quer dizer?”, “Como conhecemos?, “Como falamos?” estão inseridas no processo de tentativa de formalizar, racionalizar a nossa relação com a linguagem a fim de recuperar um sentido universalmente válido, que a tudo e a todos inclua no regime da Cidade.

Cabe agora saber que tipo de conhecimento marca a nossa época, ou seja, qual lógica atualmente opera a relação do sujeito com a linguagem e como ela pode estar correlacionada com as atuais tentativas de reformar a linguagem a fim de torná-la plenamente inclusiva.


3. O mundo da ciência


Se o mundo atual é passível de ser denominado “mundo da ciência” é devido ao fato de ela propor uma resposta à demanda de um conhecimento que organize a vida humana, tendo como horizonte um conhecimento válido universalmente. Se, como afirma Blanché, o conhecimento objetivo que ela [a ciência] visa é um conhecimento que seria válido universalmente (BLANCHÉ, 1948, pp. 205, tradução nossa), resta saber o que possibilita a sua universalidade (que seria melhor denominada de objetividade), e qual sua possível relação com a proposta de uma linguagem neutra.

Como diz Koyré, a ciência é a matematização do real (KOYRÉ, 2011, pp. 85). Isso implica dizer que o que a torna universal é o casamento de uma teoria física com a sintática matemática. Ela seria como uma escrita cuja universalidade advém do fato de que os caracteres que são operadas por ela são destituídos de todo e qualquer caráter intuitivo, ou seja, nas palavras de Lacan, seriam destituídos de sentido[1](LACAN, 1966, pp.498, tradução nossa). Como exemplo, numa equação simples de 1+1=2, os algarismos “1” e “2” são completamente esvaziados de seus referenciais semânticos[2], não expressando nada além da estrutura lógica cuja forma é fornecida por elementos que são mutuamente referenciados através de uma operação de igualdade. Isso implica dizer que a sintática matemática, e por conseguinte a ciência, caminha no sentido de um sistema puramente formal, sem significação exterior (BLANCHÉ, 1948, pp. 77, tradução nossa), ou seja, no sentido de uma sintática que baste por si e que não remeta senão a ela mesma de forma consistente. É o que Lacan pôde denominar de uma língua bem feita (LACAN, 1986, pp. 344).

Dessa forma, como o sentido deixou de ter um caráter evidente, sendo questionável a significação daquilo mesmo que a linguagem pode expressar, a ciência apresentou como solução um conhecimento que superasse este problema abolindo de seu domínio aquilo que se tratava de resolver. Operando com uma linguagem fundamentada no princípio de identidade, e cujo referencial semântico é abolido em prol de uma estrutura lógica consistente, o campo das significações é rejeitado de seu domínio, impedindo que diferenças que engendram a dimensão do sentido possam advir prejudicando a objetividade e universalidade de seu saber[3].

Essa operação da ciência, além de estar presente na constituição de um saber objetivo para o campo das chamadas ciências exatas, também começa a avançar sobre o campo do sujeito (vida social e política). Como forma de exemplificar, serão fornecidos 2 exemplos do que poderia ser a realização prática desse projeto de universalização de uma língua para constituição de um saber sobre o sujeito.

Hoje são propostos algoritmos capazes de processar quantidades massivas de informações para então fornecer critérios de verdade de conteúdos postados em redes sociais, a fim de mitigar os efeitos das Fake News, como mostra o artigo “Towards automatically filtering fake news in Portuguese” (SILVA; SANTOS; ALMEIDA; PARDO, 2020). Neste caso, a pergunta sobre o conteúdo de verdade pretende ser resolvida de forma automatizada por um algoritmo (linguagem lógica), o que por si só representa uma proposta de resolver o problema da verdade[4] da linguagem sem recorrer a nada que não possa ser expresso de maneira estritamente formal.

Ainda, outro campo presente também na área computacional e que caminha no mesmo sentido é a denominada análise de sentimentos. Ela é a área de estudo que analisa as opiniões e sentimentos de pessoas com relação a entidades como produtos, serviços, organizações, indivíduos, tópicos e seus respectivos atributos/aspectos (COSTA; PARDO, 2020). Partindo do mesmo pressuposto que o exemplo anterior, este algoritmo busca identificar a partir de falas escritas por usuários da internet a opinião, que neste caso seria a significação sentimental, ante determinado objeto contido nesse excerto publicado pelo sujeito. O que fica implícito é a pressuposição de que as significações emocionais são passíveis de serem reduzidas a aspectos puramente sintáticos da linguagem, o que a coloca no mesmo eixo de operação antes explicitado da ciência.

Em ambos exemplos, fica excluído de seu campo toda a dimensão pragmática, que seria a dimensão da enunciação que visa justamente esse além que é o sentido do que é dito, para além da materialidade do enunciado expresso (a dimensão do “O que se quer dizer com isso?”). Essa exclusão acaba por reduzir uma características essencial da linguagem: a de não conseguir se definir por ela mesma, ou seja, não ser reduzida a uma identidade simples, o que engendra, no processo de dobramento sobre si mesma, diferenças que se expressam no campo semântico, conotando o sujeito. É o que Lacan aponta ao dizer que o significante não pode significar a si mesmo (LACAN, 1961-62, pp.22), ou seja, na repetição de um mesmo significante, o que se engendra não é uma identidade, como seria o caso da repetição do “1” na fórmula matemática “1=1”, mas uma diferença semântica inassimilável. Assim, a enunciação de “uma flor” e de “uma flor que é uma flor” implica uma repetição material contendo, porém, uma diferença semântica entre não só o primeiro enunciado e o segundo, mas no interior mesmo do segundo, entre a primeira e a segunda flor. É justamente essa diferença que é suprimida em favor da possibilidade de uma identidade que se sustente por todo o cálculo que fundamenta a ciência. No final, ao tentar explicar o sentido ou a verdade da fala e da linguagem, o que se faz nada mais é do que rejeitar essa dimensão do sentido e da verdade dependentes da dimensão pragmática da enunciação e inassimiláveis no plano do enunciado, para então alcançar a objetividade de um sujeito por definição excluído do campo do saber científico.


4. A Linguagem Neutra


Como a Linguagem Neutra pode se inserir neste processo?

Como anunciado, ela pretende ser uma forma de operação na estrutura material da língua para que sejam suprimidas significações de gêneros. Com a mudança ou a supressão de vogais marcadoras de gênero de palavras que referenciam o sujeito, como os pronomes, busca-se uma inclusão universal de todas as vivências de gênero, sem que nenhuma significação possível seja excluída por uma classificação insatisfatória.

Assim, para usar o exemplo da substituição das vogais “a” e “o” por “e”, o pronome “todos” ou “todas” seria substituído pelo “todes” a fim de que não sejam privilegiados homens ou mulheres em detrimento de todas outras possíveis manifestações de gênero. A neutralização do pronome se daria pelo fato de que “todes” possa significar “todos”, pois não engendra dissimetrias quanto sua classificação masculino/feminino. E como isso se torna possível? Justamente por “todes” não fazer referência a gênero algum. Daí sua universalidade. O universal do “todes” não se daria por abarcar o conjunto de todas as manifestações de gênero possíveis, mas por ele não se referir a nenhuma delas, ou seja, por ele ser completamente neutro quanto a sua significação de gênero.

Dessa maneira, a universalização operaria no mesmo sentido da formalização matemática, suprimindo o que na estrutura da língua pode engendrar diferenças no plano semântico, no caso, a diferença sexual. Acompanhando a mesma interpretação do tópico anterior, é possível dizer que, na perspectiva de tentar incluir plenamente o sujeito numa estrutura gramatical neutra, o que acaba sendo rejeitada é justamente a dimensão do sujeito enquanto dependente dessa incapacidade de reduzir plenamente o campo do sentido à estrutura formal da língua. A neutralidade categorial do gênero, assim, não o universaliza, mas, antes, exclui da língua dissimetrias, sendo elas justamente o que possibilita o advento da dimensão do sentido que localiza o sujeito.

Está claro, entretanto, que tais modificações podem produzir resultados a curto prazo bastante significativos para grupos que formam historicamente negligenciados. É inevitável que políticas e ações sociais sejam planejadas para que este processo de exclusão seja revertido. O que se questiona aqui não é a pertinência desse movimento, mas o que é proposto como solução. O que pode parecer benéfico em um primeiro momento, pode manifestar um prejuízo ainda maior depois. A questão que fica é se a supressão do gênero gramatical, por exemplo com o “todes”, não acabaria produzindo um novo gênero que, ao pretender abarcar todos, surge como “mais um”, não apenas incapaz de realizar seu objetivo, mas provocador de uma exclusão ainda mais fundamental da relação do sujeito com a linguagem.



Referências Bibliográficas


● BLANCHÊ, Robert. La science physique et la réalité: Réalisme, Positivisme, Mathématisme. 1. ed. Paris: Presses Universitaires de France, 1948.

● COSTA, R.W.M.; PARDO, T.A.S. (2020). Métodos baseados em léxico para extração de aspectos de opiniões em português. In the Proceedings of the IX Brazilian Workshop on Social Network Analysis and Mining (BraSNAM), pp. 61-72. November, 16-20. Cuiabá/Brazil.

● KOYRÉ, Alexandre. Estudos de História do Pensamento Científico. 3. ed. Rio de Janeiro, RJ: Forense, 2011.

● LACAN, Jacques. Écrits. Paris: Éditions du Seuil, 1966.

● SILVA, R.M.; SANTOS, R.L.S.; ALMEIDA, T.A.; PARDO, T.A.S. (2020). Towards Automatically Filtering Fake News in Portuguese. Expert Systems with Applications (ESWA), Vol. 146, pp. 1-14.

● VERNANT, Jean-Pierre. As Origens do Pensamento Grego. 24. ed. Rio de Janeiro: Difel, 2002



[1] “[...] os algoritmos matemáticos que são eles, justamente, sem sentido algum.” (LACAN, 1966, pp.498, tradução nossa) [2] Não se trata de bananas, maçãs, nem qualquer outro objeto exterior à forma algébrica da equação em questão. [3] A própria pergunta “O que isso quer dizer?” não se apresenta para o campo da ciência, ou seja, querer do dizer não se coloca mais como questão uma vez que “1” da fórmula 1+1=2 não quer dizer nada além do que é expresso formalmente pela expressão em questão. Não há um movimento em direção à dimensão semântica, que é o que caracteriza a fala humana. [4]Trata-se, no limite, de tentar responder à questão do que determinada expressão quer dizer a partir de operações puramente formais e automatizadas, realizadas por computadores.

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